Praça Costa Pereira 1959, por Kleber Frizzera.

“Esquecemos há muito tempo o ritual sob o qual foi edificada a casa de nossa vida, Quando, porém, ela está para ser assaltada e as bombas inimigas já atingem, que extenuadas, extravagantes antiguidades elas nos põem a nu ali nos fundamentos.”

Walter Benjamim Em algum momento da década de cinquenta do século XX, a noite da Praça Costa Pereira foi iluminada com lâmpadas fluorescentes, assentadas em bifrontes pontas de lança sobre os postes de ferro, guardiões noturnos, em uma transformação urbana esquisita e singular.

Mais que a modernidade, buscada na exposição da nova tecnologia, é como que uma espada de luz viesse, em combate, espantar os fantasmas, afastar os maus espíritos, que no escuro, teimassem em se manter no velho Largo da Conceição, reconfigurado, em geometria regularizadora, pela ação estatal.

O quadrado instalado pelo arquiteto sobre o piso aterrado da cidade, junto ao cais do porto retificado, foi uma das marcas simbólicas de mais uma refundação da antiga capital. Em seus paralelos flancos se estabeleceriam os templos da cultura e do comércio exportador do café, em seu interior se moverão, entre seus lados iguais, homens e mulheres, transitando olhares em paralelo com a linha do bonde elétrico que leva e trás, dos novos bairros balneários, os múltiplos moradores da cidade.

A nova iluminação reitera o impulso colonial de possessão, busca, na continuidade intuída por administradores atentos, reforçar o desejo anterior, repetido, de modernização da ocupação da zona central.

São duas formas montadas em superposição. O duro e rígido desenho enxertado sobre os fios emaranhados do novelo original das ruas, largos e vielas do passado português e sobre ela a luz alva e pálida, segmentos fluorescentes, que, à noite, substituem, em céu e glória, o amarelo brilho dos antigos globos incandescentes.

Dois momentos próximos.

Vãs tentativas, ambas, de tentar salvar a cidade, porventura, condenada, de conter em um centro vital, a expansão sem norte para suas beiradas e periferias, desviado definitivamente seu futuro do umbigo original. Acesas as brancas luzes sobre o polígono instaurador, acredita-se em novas esperanças, de compartilhar em terra e ar do local do começo e de seu fim; supõe-se a vontade e a certeza de suprimir, para sempre, as sombras primevas recalcitrantes, espera-se conter em sua unidade reinventada o caminho e o risco elementar de seus fundadores.

Estranho acaso ou maldição. Alguns anos depois, um outro artista, Maurício Salgueiro, esculpe, impõe em seu centro de praça, sobre um pequeno lago, uma escultura - A mãe-, aglomerado de metal suspenso em cordão umbilical, como explícita homenagem ou documento distraído ao esforço germinal, original, desperdiçado e desagregado pela cidade estilhaçada.

Hoje, sentados em seus bancos, longos e curvos bancos em sombras, sob suas grandes e frescas árvores, perdidos os impostos nomes e as citações primitivas, nós filhos solitários do presente, aguardamos, pacientes, o tempo desfiar e contar, aos mais curiosos observadores, as suas perdas e ilusões.

Espiamos, nostálgicos, ciosos, estas estranhas e líricas obsessões, desmanchando-se ao vento, em pequenas gotas de chuvas de verão.

‘’Longe, muito longe daqui, o vento sopra. Este é o instante em que nada mais a ser dito. Observe. Este é o instante em que ouve o coração do mundo. Este é o instante em que o vento sopra, invadindo a cidade seus quatro postos cardeais. Observe. Este é o instante em que Vitória se parece com qualquer cidade do mundo, apresentando-se anônima para sempre”.

Amylton de Almeida

15 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo