Pertencimento urbano, ou a vitória dos bárbaros, por Kleber Frizzera


Digo o nome da cidade

- Digo para ver

Sophia Andresen

Alguns afirmam que a cidade de Vitória é um lugar de forasteiros, oriundos do interior, de outros estados vizinhos, que não compartilham um pertencimento com o mundo local, com as suas histórias, paisagens, culturas, enfim, não se identificam com seu patrimônio imaterial ou natural e construído, com os seus valores e a sua preservação.

Nômades, descomprometidos com os ambientes que vivem, seriam como Atila, rei dos hunos, que comandou o saque e destruição de Roma Antiga, bárbaro, incapaz de reconhecer os valores estéticos, históricos e artísticos da capital do decadente império.

Se isto for correto, pouco importa aos nossos bárbaros contemporâneos deixar abandonada a cidade histórica, fortificando-se em seus condomínios e compartilhando pouco interesse pelos lugares naturais e artificiais, que compõem ou compuseram, antes dos estragos seculares, o ambiente metropolitano.

Como indícios, poderíamos anotar o descaso pelo centro de Vitória, a ocupação predatória do planalto de Carapina e do litoral de Vila Velha, sem falar na obsessão pelo alargamento das vias, como a cidade fosse um churrasco de picanha, algo a ser retalhado na mesa de um açougueiro, ou de um coronel.

Embora os sintomas sejam muitos e evidentes, tendo a achar que outras causas contribuem para estes comportamentos, tão extensos e generalizados:


1. A desqualificação das coisas do estado e da cidade diante das metrópoles nacionais, desde o futebol às manifestações artísticas e intelectuais,

2. A ideologia da propriedade privada colocando a sua proteção e segurança como um bem supremo, acima de qualquer interesse público,

3. O baixo consumo de bens culturais e uma desvalorização ou desconhecimento dos produtos artísticos locais,

4. O forte preconceito racial, dirigido contra negros, índios e caiçaras e às suas manifestações e práticas sociais, artísticas e culturais,

5. O perfil religioso conservador, de perfil moralista, o comportamento machista misógino, adicionado a uma rejeição de modos de vida não convencionais,

6. O progresso e o desenvolvimento econômico entendido como uma vitória, obtida pela exploração e uma conquista contra a natureza.

E daí?

Mapas, desenhos e romances, textos descritivos de lugares, de viagens e eventos, foram ferramentas que a partir do século XVIII, contribuíram para a formação simbólica dos estados nações, delimitando recortes geográficos e culturais, molduras que deram forma a um território partilhado. Somados a imposição do uso de uma única língua, uma única história e a subordinação a um único poder, estas narrativas fixaram um povo, um país, uma identidade.

Como exemplo, escreve Leonardo Padura, escritor cubano, “Havana é uma cidade que se construiu com pedras e com palavras”, a partir do século XIX, quando em um momento mágico “um grupo de escritores ... se empenhou no projeto espiritual da cidade de Havana”, pois era necessário uma imagem da nação, “e essa imagem teria com cenário uma cidade”. Entre o mar e os edifícios erguidos pelos homens, começaram a dar forma singular a esta visão, que entre peculiaridades. “teve a condição da insularidade e o espaço urbano como o território cabal das confluências físicas e existenciais”.

Armazém de memórias, como se denomina, Padura escreve, “minha Havana soa a música e carros velhos, cheira a gás e a mar, sua cor é azul, uma mescla de lugar e acontecimentos, de obras, edifícios, ritmos, músicas e cores, e conclui:” Meu pertencimento a esta cidade mais que dramático ou trágico, e’ essencial, como uma condenação: sou porque pertenço. “

No processo atual de globalização, nações desfizeram suas particularidades, cidades se desconstruíram, seus sentidos e lugares, dissolvendo palavras e pedras, submetidas às lógicas econômicas e simbólicas dos mercados, gerando movimentos de resistências às migrações e do retorno a práticas tradicionais.

Com estas transformações mundiais, também cresceram iniciativas de autonomias regionais, que tentam reconfigurar fronteiras, pretensas causas da perda de importância econômica e política de um dado território, cidades e metrópoles, em todo o mundo, investem em (re)inventar suas identidades, que destaquem as suas capacidades tecnológicas, intelectuais e posições geográficas, visando disputar as posições de valor e importância na acirrada competição internacional.

No Espírito Santo, um discurso semelhante, o capixabismo, que somava uma pitada do ressentimento, um preconceito com os migrantes baianos a uma pretensão de sermos capazes de um desenvolvimento autóctone, foi estimulado por mais de um governo estadual, não conseguiu emplacar e atrair muitos seguidores.

A quase metrópole Grande Vitória, com sua crescente dispersão geográfica e populacional e uma rígida segregação social e funcional, não estimula ações colaborativas, e coloca, em dúvida, a capacidade política de agregar esforços e articulações, somando contínuos fracassos às seguidas tentativas de um planejamento e intervenções regionais.

O resultado é o abandono, em fragmentos, das suas cidades e dos bairros, ou seja, das estruturas que asseguram a coesão territorial e o princípio da solidariedade metropolitano.

Seria a ausência de uma identidade ou uma lealdade metropolitana, as fontes determinantes desta solidariedade, e quando somadas à perda de uma centralidade, os motivos que impedem soldar, sobre as diferenças sociais e econômicas, a potencialidade um pacto por uma vida social, política e cultural partilhada?

O Espírito Santo e a cidade de Vitória não possuem um único museu ou memorial que preserve, resgate ou divulgue a história da sua ocupação e de suas transformações. Em alguns municípios restam algumas casas que expõem objetos antigos, na sua maioria laudatórios da imigração estrangeira, europeia.

Índios, pobres e negros, exceto no Mucane, não fazem partes destas comemorações.

Pesquisas acadêmicas, movimentos e organizações sociais, em vários momentos, estudam, valorizam e intentam proteger monumentos e bens imateriais, mas além da nossa dupla, panela e moqueca e a paisagem do Convento da Penha, utilizadas por todas as camadas sociais para alimentar uma identidade capixaba, continuamos a conviver com o lamento de uma perda anunciada. E não chorada por muitos.

É como se apenas as paixões tristes tivessem direito de cidadania, como se a única imagem aceitável da vida social fosse a da decadência e da catástrofe anunciada, escreve François Dubet, em seu recente livro O tempo das paixões tristes.

Estaremos condenados, deixados em partes, a nos manter periféricos, exportando sonhos, remoendo fracassos e projetos abortados, sobrevivendo, em pequenos desejos, à dura realidade da desigualdade, que separa, a prepotência, que manipula, a individualidade, que egoísta, incapaz da solidariedade e da cooperação, se distrai no consumo e na acumulação?

Kleber Frizzera

@Kleber Frizzera

Publicado originalmente em Movimentoonline.com.br

Setembro/ outubro 2020

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