Performance "Caibo", por Diego Nunes



Caibo é uma proposta de performance que consiste na antropometrização do corpo do artista em lugares escolhidos pelo mesmo, com foco em evocar a ocupação de corpos negros nos mais diversos espaços. O performer é demarcado no espaço a partir de riscos retos contornando seu corpo com pemba preta, ferramenta utilizada nos terreiros para rituais e na comunicação com exu. As subjetividades que pairam sobre os corpos negros e suas identidades étnicas são muito mais amplas do que se imagina, transitando por entre as afetividades e sexualidades destes indivíduos e seus territórios. Assim, caibo propõe novas discursões sobre a negritude e seus desejos. Agora, dialogamos sobre as afetividades e sexualidades que permeiam alguns desses corpos, os corpos bichas e pretxs. Assim, proponho o exercício de cartografar os pontos próximos ao MUCANE que são ocupados por essas afetividades e sexualidades bichas e negras, entendendo que o MUCANE já é um espaço que nos cabe, dentro da imensa diversidade existente dentro da comunidade. A ideia aqui é visibilizar esses espaços com suas potencias marginalizadas, transbordando suas dimensões geográficas e demarcando, através do meu corpo, as territorialidades, calcadas nos desejos de bichas, travestis e tantos outros seres da negritude que transcendem a ordem normativa da sociedade. Neste mapeamento identifico três pontos: O Cine erótico, último cinema de rua da cidade, direcionado à exibição de cinema pornográfico e majoritariamente frequentado pela população LGBT+; O Centro de Testagem e Acolhimento do Parque Moscoso, espaço público dedicado ao aporte e conscientização da população em relação às IST’s, onde tantos corpos bichas tratam em segurança de seus corpos e seus estigmas e o Parque Moscoso, Parque mais antigo da cidade que no século XXI é habitado recorrentemente pelas bichas e seus desejos sexuais e afetivos, em especial em seus banheiros e recantos mais escuros. A ação consistirá na demarcação do meu corpo nas calçadas das portas de entrada principal destes espaços. Assim, demarco com a pemba quanta vezes o meu corpo cabe nas calçadas imediatamente em frente à essas entradas, num horário de fluxo intenso de pessoas. Como resultado, um desenho composto por uma série de retângulos semiabertos, que permanecerão nas calçadas por alguns dias, conforme o tráfego de pessoas. Em seguida, fixo um adesivo, com tamanho similar ao tamanho real do meu corpo, com o cálculo exato de quantas vezes meu corpo cabe dentro destes três espaços, ressignificando seus padrões de medida e de utilização e demarcando-os como territórios negros e bicha, territorialidades já existentes porém invisibilizadas socialmente. Na execução da performance, vestirei um figurino branco e fluído, que para além de remeter aos terreiros de umbanda e candomblé também traz a ideia de infectação mútua entre artista e rua, já que riscarei todo o chão da calçada e, ao mesmo tempo, esse chão imprimirá seus resíduos na roupa branca. A performance traz uma forte referência ao conhecimento tradicional das religiões afro brasileiras, em especial a umbanda. Evoca exu para tornar o desejo de (auto) representação e representatividade negra e bicha no espaço uma realidade e demarca uma estética preta no ambiente, assim como Rubem Valentim ao longo de toda a sua obra, em especial “Templo de Oxalá” (1977), que traz em forma de escultura e telas pontos riscados de exu para a Bienal de São Paulo. O trabalho com memória, cartografia e com o corpo das performers afro-brasileiras Michelle Matiuzzi e Charlene Bicalho são um norte estético e conceitual para a performance, na forma em que se trabalha o corpo negro em manifestações de arte contemporânea e na abordagem assertiva acerca da negritude, seus silêncios e a ocupação de espaços na sociedade. A body art, dos experimentos de Yves Klein e as obras com o corpo de Lygia Pape no período neoconcretista (em especial a performance “Divisor”) também servem como apoio para construção da performance, que coloca a forma, construída a partir do corpo do artista, como protagonista da ação. “Caibo” tem como princípio debater as afetividades dos corpos bichas e pretxs, num ímpeto de descolonizar nossos desejos e questionar a marginalização social instituída a esses indivíduos. Visa um descortinamento dessas territorialidades, demarcando a existência e a potência do desejo da comunidade LGBT+, evocando exu e arqueologizando afetos, na construção efêmera de um mapa de afetividades secretas bichas e negras.

Diego Nunes

@dinunes01

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