Grisalha Vitória, por Kleber Frizzera

Atualizado: 20 de Mai de 2020


poeira, da grisalha soprada sobre todas as coisas

O vento e a brisa espalham e dissolvem, na cidade, os resquícios monocromáticos dos passados, ‘entre o sopro e a pedra’, deixando transparentes os espíritos, seus muitos pontos e mitos, e a cinza e a dura pedra turbilhona movimentos descoloridos, reflete, em espelho de prata, os grisalhos registros das imemoriais identidades, de desfalecidos espectros, à livre interpretação de seus rastros, desvanecidas assinaturas impressas no presente.

’Aquilo a que chamo um vento – escreveu Georges Didi-Huberman, é que Merleau-Ponty denominou de ‘ «latência» e «possibilidade» da cor – e foi pelos autores medievais, seguindo Aristóteles, designado como o diáfano. De acordo com os mesmos, o diáfano constituía uma condição física fundamental de toda a visibilidade: «receptáculo da cor», era em si mesmo incolor, porque pensado na sua dimensão de potência (e não de acto), na sua «natureza mista» de ar e de água.’

Esta é uma condição única que Merleau Ponty então designou a fazer tornar visível, diáfano e possível ‘um fóssil trazido do fundo de mundos imaginários […] [qualquer coisa] que não é coisa, mas sim a possibilidade, latência e carne das coisas’.

Ou que era para Mallarmé, algo fluido como uma brisa, leve como pluma, ‘um ar que se impõe despoticamente a todo o resto. […] um ar que reina em realidade absoluta, como que possuindo uma existência encantada, que lhe é conferida pela feitiçaria da arte […]'.

Conclui o poeta, que neste momento, se observa em brilho fugaz, em lampejo, uma ‘ação invisível tornada visível. E como? Mediante a mistura ou o conflito travado entre superfície e profundidade […] . Aquilo que aí vemos] o que vive perpetuamente, e, contudo, morre a cada instante’.

Este brilho, tão rápido, pintado em grisalha, está representado de acordo com a ficção de uma cor passada, um modo especial de referir-se à descoloração das superfícies, mas também um modo de dizer que o tempo passou ligeiro por essas coisas, vazou, deslizou por estes objetos como um sopro, como um vento que os descascaram e os esmaeceram.

São memórias marcadas, nestes restos urbanos transfigurados, de fragmentos registros, nestes arranhões à pele do tempo, e tudo que aconteceu naquela rua, naquela cidade, naquela praça, ‘súbito se condensa e se cristaliza numa figura ao mesmo tempo lábil e exigente, muda e cumplice, destacada e distante, conclui Giorgio Agamben, ‘ Essa figura é o espectro ou o gênio do lugar’.

Grisalha, pois: uma pintura da cor passada, desmaiada, feita em pó da pedra esboroada, pulverizada, decomposta – mas onde sempre aparece um certo colorido, pastel. É uma matéria sempre agitada pelos ventos do tempo, onde veremos, então, que cada época apresenta as suas próprias configurações simbólicas para recriar, de um modo contínuo, uma repetição sempre diferente, este mistério, este acontecimento, esta forma, esta matéria.


- Restos


- Vitória

1. Inúmeras fotos da cidade, em preto e branco, impressas em prata, se estabelecem nos meus arquivos e nas minhas virtuais lembranças. Nelas convivem superpostos lugares e histórias, algumas anotadas anonimamente em suas margens, lançando à admiração, objetos e casos, afetos e pessoas, aos nossos olhares debruçados, amorosamente.

2. Não se acomodam, negativos, nos fundos de caixas e gavetas, mas movem-se em nuvens, dispersas, digitais, dissolvidos os papeis e os sais noturnos. Nestes instantes, espadas de luzes florescentes disputam os céus da noite da praça Costa Pereira, enquanto derramam os bondes os tilintares de seus sinos pelos chãos.

3. Sobrevivem, eventos mudos, palavras mudas, em desgastes circunlóquios, em abandonadas histórias de fundos de quintais e trepadeiras, em desbotadas flores em espinhos, lançadas sobre muros e grades, damas da noite feitas de cheiros doces de prazeres e expectativas.


- Futuros


1. Dos amores, das ciências, das artes e da política, amalgamam-se brilhantes faíscas, desfilam sonhos, projetos, desafios.

2. Surpreende-me, às vezes, estes desejos imediatos, (in)satisfeitos, expostos nos peitos em camisas impressas com slogans de estímulos a saúde e exercícios, comidas naturais, ecológicos destinos de férias e gozo.

3. A paisagem recorta um caminho ao lado.


Kleber Frizzera - @apartirdocentro


Agosto de 2019.


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