Da Casa à Cidade, sobre o futuro.

A crise sanitária expôs nossas fraturas históricas: segregação sócio espacial, deficiências na área de educação, saúde e saneamento. De um lado, ficam claras a profunda exclusão de grande parte da população da condição mínima de moradia, dimensões compatíveis, infraestruturas e localizações adequadas, e de outro lado, visíveis os equívocos formais, sensíveis e materiais da produção do mercado imobiliário e de suas relações com o entorno natural e as cidades.

As desigualdades urbanas têm a sua origem na profunda diferença de rendas que cliva a sociedade, impedindo aos setores mais pobres o acesso ao mercado imobiliário, e é exponenciada pelos baixos investimentos públicos na produção de imóveis e urbanizações de qualidade para esta população.

A pandemia da Covid-19 mudou as nossas vidas, nossas relações com o próximo e com as nossas cidades, ela ‘escancarou as grandes dificuldades sanitárias e de controle epidemiológico em nossas cidades, em boa parte caracterizadas por enormes deficiências das condições das habitações, inexistência de espaços públicos adequados, falta de equipamentos comunitários e serviços públicos e de infraestrutura nas periferias, além de assentamentos subnormais’, como sinaliza o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR).

A arquitetura é capaz de moldar a forma como vivemos e experienciamos a cidade, a moradia, os espaços livres, entre outros, portanto tem papel importante na discussão do contexto atual em repensar o “morar”, o “estar” e o “circular”.

A imposição atual de uma maior vivência diária nas casas ou apartamentos tem sinalizado inadequações ambientais, simbólicas e funcionais no ambiente doméstico e na cidade que devem ser revistas no futuro e que não dependem somente dos arquitetos.

A casa tem que ser entendida e percebida, não mais simplesmente como o local do atraso, da reprodução de comportamentos tradicionais ou hierárquicos, mas como um cenário da vida e das mudanças. Os desenhos e os projetos destas novas casas, ainda não existem e são desafios para uma sociedade, seus técnicos e políticos, comprometidos para mundos e tempos melhores, na vida privada e na vida pública.

Resumimos aqui algumas perspectivas de revisão:

1. A forte segregação urbana imposta à população pobre, nos locais de moradia e na mobilidade urbana, mas também, o isolamento por decisão própria, de setores da classe média, que passaram a se isolar nos condomínios fechados.

2. O acirramento dos comportamentos autoritários no convívio familiar, da violência doméstica, principalmente contra as mulheres.

3. A casa tradicional, reduto feminino, torna-se local da disputa, onde os homens, passam a querer demarcar o seu poder e presença no espaço doméstico.

4. O retorno do papel da cozinha como um centro de compartilhamento dos afetos familiares por meio do preparo e consumo dos alimentos, práticas que tinham sido reduzidas pelo crescente aumento da alimentação fora de casa.

5. As limitações para a instalação de ambientes adequados ao home office, em residências onde não há privacidade suficiente para o exercício do trabalho e estudo individual, bem como suportes físicos e tecnológicos para estas atividades.

6. Casas e apartamentos desenhados e construídos, nas áreas metropolitanas, para o uso noturno ou de fim de semana, mostram- se insuficientes, em dimensões e confortos corporais, inadequados em termos ambientais .

7. Prevê-se, no âmbito da habitação, apostar em edifícios híbridos, flexíveis, que associam diferentes usos e permitam o rápido e seguro acesso ao trabalho, comércio e espaços livres de qualidade, garantindo a exploração de todos os sentidos humanos.

8. Dentro deste contexto, imagina-se a possibilidade de pensar nestes novos edifícios como pequenas comunidades, ‘novos bairros’, garantindo o espaço para o encontro, maior contato com os vizinhos e a ajuda mútua. As varandas, pátios internos e terraços-jardins, por exemplo, elementos já conhecidos da arquitetura, devem retomar seus postos de valor na moradia, reforçando a conexão com o exterior, contato com a luz solar, com o verde, entre outros.

9. Os apartamentos em si, devem se tornar mais versáteis e talvez mais amplos, garantindo uma boa ventilação e iluminação natural, talvez com menos móveis, para se adaptar aos diferentes usos que hoje são exigidos destes espaços, desde a função do estar ao home office e à academia.

10. Imagina-se uma redução dos deslocamentos casa-trabalho diários, impulsionando uma remodelação dos sistemas de mobilidade e, assim, trazendo uma melhor divisão entre os modais de transporte. Dar maior espaço as calçadas e ciclovias, interligar o sistema de mobilidade com espaços livres públicos amplos de qualidade – parques e praças – garantindo uma melhor divisão destes no tecido urbano.

11. As cidades devem manter suas características de cidades globalizadas e tecnológicas, trabalhando mais em cooperação do que como concorrentes. No entanto, devem se tornar mais flexíveis, criando um sistema que permita um regime de isolamento futuro, no âmbito físico-econômico, reforçando o comércio local, tendo indústrias-fábricas preparadas para adaptar sua produção de acordo com demandas de novas pandemias, impulsionar pesquisas de construções rápidas e eficazes para hospitais de campanha, enfim, estar preparado para novos acontecimentos similares, montar um plano estratégico.

Diante destas onze prováveis “possibilidades”, as cidades precisam e devem se reestruturar, ambiental, econômica e socialmente, a produção, inclusive, através do trabalho colaborativo, o consumo consciente dos bens e serviços, a mobilidade diária, as práticas de vida cotidiana, privada e pública e a oferta de habitações e ambientes urbanos dignos a todos os seus moradores.

Pensar a longo prazo, no contexto do Brasil, não significa desenhar novas cidades, mas cuidar das cidades existentes e qualificar os espaços para abrigar a vida, seja no dia a dia, seja em momentos de pandemia.

É importante superar o debate que se refere “as ações macro/micro, top down/botton up, plano/tática enquanto dicotomias do urbanismo”, para refletirmos sobre quais são os pontos de contato que nos permitem a análise complementar dessas ações. As ações colaborativas, inclusive as manifestações artísticas, quando inseridas e associadas ao urbanismo, podem amplificar a existência de demandas e/ou a requalificação de espaços e contribuir para diferentes vivências em espaços que, por muitas vezes, o urbanismo tradicional não atendeu e/ou não respondeu de forma coerente às necessidades da dinâmica do espaço urbano e do lugar.

É preciso repensar nossas cidades, transformá-las finalmente em ambientes saudáveis, seguros e habitáveis para todos.

Vitória, 22 de maio de 2020.


@apartirdocentro

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