Camadas a partir do tempo, por Fernando Achiamé.



Tudo sumido tudo

a Fonte Grande e o Reguinho

marés de março e o vento sul

as pedras da Gruta da Onça

e a mata do Maciço Central

com infinitos tons de verde

em radiosa manhã depois

do aguaceiro de verão .

Tudo sepultado

os mangues e o Campinho

o Cais de São Francisco

as roças velhas e a chácara Mulundu

o Éden Parque com seu cinema

e o painel de Burle Marx

que por décadas ficou sem ver a luz

em quentes tardes de primavera

na agitação da Jerônimo Monteiro .

Tudo sepultado tudo

a Rua do Comércio

o pontilhão sobre o braço de mar

depois Avenida República

a nobre Avenida República

e o casario em volta do Moscoso

que conheceu inverno tropical

somente em poucas noites

Tudo debaixo de lembranças .

Quase nada sobrou quase nada

vasos sem um mato sequer

tufos de capim no asfalto

palavras nos documentos

do Arquivo Público Estadual

e papos com Fernando Tatagiba

nas madrugadas da Costa Pereira

quando o sopro do outono vibrava

as folhas das palmeiras imperiais .

Ainda bem que restaram

as quatro partes do dia

as quatro estações do ano

os quatro ventos cardeais

dos quatro cantos do mundo .

Sobraram também andanças

pelo umbigo de Vitória

a juventude deixada

em algum lugar da Cidade Alta

o Museu de Arte Sacra

na capelinha de Santa Luzia

perto da loja maçônica

e no boulevard Pedro Palácios

a amizade com os velhos oitis

e com o doutor Milton Caldeira

servidor público exemplar .

Tudo isso é bem pouco

mas o bastante

para os que vierem

viverem mais ainda .

Tudo isso é muito

para um dia ser esquecido .



Fernanado Achiamé é poeta e historiador. Colabora voluntariamente com o Projeto A Partir do Centro, foi entrevistador e também entrevistado. (@fernando_achiame)


Imagens: acervo público e @apartirdocentro/@angelagomes.arq

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